O dia do amigo passou, mais uma vez, sem que eu fizesse
qualquer homenagem. Não tem problema, escrevo agora.
Na madrugada de anteontem, meus
pensamentos fugiram para revisitar alegrias passadas. Me lembrei dos meus
amigos. Mais precisamente, me lembrei dos meus amigos da escola, colégio Pedro
II Unidade Tijuca II, lugar de encontro de doido com doido. Mais precisamente ainda, me lembrei dos cinco
doidos que estiveram comigo durante todos aqueles anos de aulas, provas e
recreios (e outras coisas no meio). Vou entregar quem são: Larissa e Israel,
colegas da primeira turma; Victor Yemba, o menino que fazia treze anos sem
ganhar parabéns; Luisy, a menina que parecia comigo, e Mayara, a aluna nova
tímida.
Consigo ver agora que muito
tempo já passou, mas não choro, como é comum nessas horas nostálgicas. Eu rio.
Entre catiras, peças de Mozart,
ligações de sacanagem no meio das aulas, brincadeiras vergonhosas no pátio,
brigas de menor importância, apelidos descaradamente engraçados, festejos
improvisados, comentários audaciosos, música de gosto duvidoso e milhões de
conversas, umas bobas e outras muito sérias,
acho que viramos grandes amigos. O esquisito é que aparentemente não
temos nada a ver uns com os outros. Aparentemente, porque os doidos nunca são o que parecem ser.
Larissa: ela ficava perambulando
pela sala. Depois vim a descobrir que era hiperativa. Ela ficava perambulando
pelo pátio à procura de um grupo em que se encaixar. Depois vim a descobrir que
era rara e, por isso mesmo, encontrar seus pares não era fácil.
No primeiro ano, embora
conversássemos sobre alguns assuntos de interesse comum, não nos tornamos
amigas. A amizade veio nas férias e por telefone. Nunca passei tantas horas
naquele aparelho (hoje tão desprestigiado) como durante as conversas com
Larissa. Se somarmos todas as horas que gastamos ao telefone, o número vai a
três dígitos.
Larissa, engraçada até nos
momentos mais "tensos", me ensinou a rir de mim mesma.
Israel: ele pedia pra ler todos
e quaisquer textos que pintavam nas aulas. Depois vim a descobrir que era um
excelente conversador. No bom sentido. Ele comia pão de queijo todos os dias.
Depois vim a descobrir que era mineiro- e alérgico a glúten.
Nos tornamos amigos no sétimo
ano, depois de rir muito e contar histórias de terror. Esse menino cresceu
diante de meus olhos! Ao longo dos anos, vieram incertezas e indagações e, ao
longo do caminho de volta para casa, nos conhecemos e reconhecemos profundamente.
Questões filosóficas se interpunham naquele nosso caminho de quinze minutos e
nos obrigavam a refazer, todos os dias, o que nós éramos.
Israel, inteligente e sensível,
me ensinou a fazer perguntas em dupla.
Yemba: ele se chamava Yemba.
Depois vim a descobrir que seu pai era do Congo. Ele tinha o maior sorriso do mundo. Depois
vim a descobrir que era feliz, muito feliz.
Já no início percebi que aquele
era um cara de coração puro. Jamais faria alguém infeliz. Espontâneo, leve e
solto, sempre foi muito famoso no CPII. "Yemba!", todos diziam. Nos
aproximamos talvez por termos em nós liberdade, a liberdade de sermos o que
desejamos sem dar a mínima para o julgamento alheio. Durante esses anos,
Yembinha foi meu protetor, meu amigo pra todas as horas e o grande sorriso da
sala.
Yemba, forte e livre, me ensinou
a ser leve e a esquecer qualquer mágoa.
Luisy: ela estava sempre na
biblioteca. Depois vim a descobrir que era uma mente de imaginação
privilegiada. Ela carregava um monte de mangás do Inu-Yasha. Depois vim a
descobrir que Inu- Yasha até que é legal.
Me disseram que havia uma menina
nova muito parecida comigo. Quando a vi pela primeira vez, discordei. No
entanto, conforme fomos nos conhecendo, ela contando seus sonhos delirantes e
eu ouvindo amorosamente, percebia que éramos duas liras semelhantes (ou dois
poemas iguais). Livre ela também era- e voava. As histórias da Boiúna, as
aventuras oníricas, os gatos misteriosos... Luisy encantava. Diferente de tudo
e de todos, passara por algum sofrimento, mas, por ser criatura nobre, a
alegria era seu dom.
Luisy, sonhadora e original, me
ensinou que o melhor é ter a cabeça e o coração abertos à nossa própria poesia.
Mayara: não falava nada. Depois
vim a descobrir que era muito tímida. Usava acessórios muito delicados. Depois
vim a descobrir que adorava heavy metal.
Seu pai, o grande Seu Roberto,
me pediu para conversar com ela, tímida e envergonhada. E foi o que fiz. Pra minha sorte, descobri
uma menina meiga, gentil e inteligente que, ao mesmo tempo, tinha na veia a
audácia do heavy metal. Tínhamos muita coisa em comum: a paixão por música, o
gosto pela dança e um humor imperdoável. Nunca vou esquecer da viagem a
Petrópolis em que, ligadas por um fone de ouvido, escutamos Michael Jackson e
Beatles.
Mayara, gentil e bem- humorada,
me ensinou que dá pra ser bossa nova e heavy metal simultaneamente.
Esses são meus amigos, do
jeitinho que eu os vejo.
Meus amigos.
Meus amigos, o coração dói de
vez em quando, tanto é meu amor por vocês. Não vou esconder que existe um
sentimento maternal aqui: esse amor é incondicional. E não importam os
diferentes caminhos que seguiremos. Somos todos uns doidos, uns mais outros
menos.
O que seria de nós sem eles? O que seria da poesia?
ResponderExcluirLendo o que você escreveu, fiquei pensando nos meus amigos... só de pensar o peito já estufa de tanta felicidade. Emocionante seu texto,Liana! Eles tem sorte de ter uma amiga assim como você! Beijão!