Ignoro como se começa uma confissão, a confissão do meu
pecado horrível, horrendo, cruel. Mas inspira-me uma força tal, que de
franguinha covarde e escorregadia torno-me uma leoa feroz e arrebatada.
Hoje acordei com o cão. Não dei
bom-dia a ninguém- na verdade, se disse foi tão maquinalmente que nem me
lembro- e fui direto a um papel infeliz, onde um olho sabido veria associações
em série, geradores, receptores e toda aquela parafernália teórica. Um
exercício, nada. Passei pra outro, nada. E assim foi: uma repetição
mortificante de nada. Ai, como me achei burra. Burra como uma égua. Nada.
Embuchei, me zanguei, joguei o lápis pra fora da mão. Os geradores ali sem
transformar energia; os receptores lá, servindo pra nada. Eu, inútil, sem
conseguir resolver os exercícios de física. Ora, fui chupar a manga que meu pai
gentilmente tinha posto sobre a mesa. Chupei a manga, mordi-a em cólera. Só faltava
babar para ser uma fera completa. Os cabelos de animal selvagem já tenho.
Ah, que manga deliciosa! Com ela
foi a minha raiva, ou pelo menos a parte mais superficial dela. A fera estava
domada, brincando que nem um gatinho, fofinho, miúdo, as garras retraídas.
Talvez me perguntem: e a lista
de física, a tal da infeliz? Coloco isso para deixar o texto mais coerente e
coeso, porque, de verdade, ninguém se lembra mais da física. Querem saber é de
selvageria, isso sim.
Pois bem. A física foi pro
espaço; não ousei olhar na cara dela de novo, depois de ter sido derrotada de
forma tão humilhante.
Hoje acordei com o cão. Chupei
manga. Lati, ladrei. Chorei, chorei muito. Estava na janela da cozinha, um frio
desalmado (será mesmo desalmado?) e uns gominhos de tangerina na mão e na boca.
Aquele gosto doce e ácido era invadido pelo sal das lágrimas. Que choro
selvagem! Era uma leoa em prantos, desatando a cada dentada os nós da garganta.
Naquele instante, vendo as
plantas lá embaixo, um pouco embaçadas pela clarividência das lágrimas, eu
descobri meu pecado horrível, horrendo, cruel: eu amo. Amo o quê, amo a quem?
Sei lá. Amo, e é só. Um amor pungente, esmagador, uma potência sem cabresto.
Cresce até onde vai o infinito. Eu chorava sem continência, as lágrimas
escorrendo em
torrentes. Nascia um rio lá embaixo. E o frio fazendo as
folhas se contorcerem, não sem algum acanhamento. A tangerina se desfazendo,
pouco a pouco, gomo a gomo. Nascia um universo lá fora- e aqui dentro também.
Como se as coisas se descobrissem, eu ia chorando, enchendo o rio
recém-nascido. O amor aumentando, se expandindo como o infinito. A tangerina
acabou. Fui à geladeira pegar uma maçã. Tinha de chorar; as árvores querem
crescer. Num instante voltei à janela aberta para continuar meu pranto
clarividente.
Essa loucura amorosa que vivi
era o que meu pai, sábio homem, me disse um dia: refletir o universo. Virei
bicho, virei fera, virei mexerica e maçã; virei lágrima, virei rio, virei
folha, árvore, céu, vidro, frio, fome, as pessoas passando na calçada. Virei
próton, nêutron, elétron, gerador, resistor, toda a parafernália. Eu era tudo.
Era o nada (os exercícios em branco). Amor.
Seus textos são incríveis.Tão fortes e sutis ao mesmo tempo... Estou verdadeiramente encantada!
ResponderExcluirRealmente não sei como responder. Você me pegou de surpresa, estou emocionada! De verdade, quero muito agradecer pela delicadeza de ter lido meus textos e de ter comentado sobre eles. Muito obrigada, Carol! Você é uma menina incrível, delicada, especial! Um grande beijo!
ExcluirVocê é simplesmente... Uma artista!
ResponderExcluirMuito, muito obrigada, Marianna! Me entusiasma bastante receber um elogio de uma artista tão talentosa como você!
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