Estou no ônibus, Gabriel, e a
tinta da minha caneta aos poucos se vai.
As letras vão ficando ilegíveis, fugidias, silenciosas. Quase não as
vejo. Elas são menos que o rastro do meu pensamento.
Dá tanta dó
ver a tinta esvair-se para seu fim definitivo. Melancólica é a experiência de
se desfazer. Gabriel, eu choro. Choro, talvez, as mesmas lágrimas que a sua
poesia um dia arrancou. Aquelas lágrimas boas de chorar, que, livres, tomam seu
caminho rumo à insanidade. Velo do ônibus seu corpo defunto e sorridente. Eu
estou voltando pra casa, Gabo, e com a sensação de ter vivido esse dia- a
quinta-feira santa da sua morte- plenamente. Como eu sei disso? Ora, meu velho
camarada, foi você mesmo quem me ensinou a viver a vida comendo as flores e
bebendo perfume. Ou a morte levou consigo as suas lembranças? Vejo seu corpo
apodrecer na tinta das minhas frágeis palavras. E lá se vão as lágrimas.
Percebeu, Gabito? As coisas têm essa natureza: fogem, somem, vão embora. Nada é
para ficar guardado. E a beleza está justamente na caneta que falha. Se ela, do
contrário, tivesse sido guardada, prevenida da súbita vontade de se derramar, não
faria o menor sentido. Somos todos, em carne, ossos ou plástico, feitos para
acabar, depois de tantas bebedeiras e catarses.
Gabriel, um
último parágrafo, não à sua memória, mas a seu corpo morto. Obrigada pelas
flores, pelas amendoeiras, pelas borboletas amarelas, pelo trem cadavérico da
meia-noite, pelas mangas, pelas viagens sem fim através de um rio repleto de
porcarias. Obrigada pelas tardes calorentas, pelos ciganos errantes, pelos
sinos e pelas quinquilharias de armazéns antigos. Obrigada por Florentino, por
Aureliano, por José Arcadio, por Maurício Babilônia, por Pietro Crespi, por
Juvenal Urbino, por Abrenuncio, por Cayetano Delaura, por Fermina, por Sierva
María, por Úrsula, por Amaranta, por Rebeca, por Remédios, por Sara Noriega,
por America Vicuña. Obrigada, meu querido Gabriel, pelo fim da minha caneta.
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