Já passa da meia noite. Devo estar meio bêbada.
Sim, estou bêbada depois de alguns copos de vinho tinto.Vinho tinto, vinho
tinto, vinho tinto. Minha cabeça dilata as palavras; meus olhos estão doloridos
e meus ombros carregam quase todo o peso do mundo. Quase todo o peso do mundo,
quase todo, quase. Quase durmo. Por que escrevo, tentando afastar o maldito
diabo do sono? Também não sei ao certo. Escapa-me a razão, embora ainda domine
a lógica da linguagem. Linguagem, lógica, razão. Poderia mesmo eu não ter razão
ao dizer essas palavras? Desconfio que meus dedos é que dominam toda a
capacidade do meu ser. Mente, cabeça, cérebro. Estará meu espírito desencontrado
em meus dedos? Quatro minutos depois da meia noite. O tempo é a distância que
meus dedos percorrem nas teclas do computador. Seis minutos. Sete minutos. Em
um minuto, meus dedos ficaram imobilizados. O tempo também é a não distância.
Estou bêbada. Estaria também delirando? Decerto que sim. Decerto que os
delírios são mais verdadeiros que nossas farsas cotidianas. Outro dia mesmo, um
bêbado eu ouvi dizer: " Os peixes quando fora d`água morrem todos. As
tartarugas não! Tremendo!" Tremendo: um bêbado tem questões mais
importantes a resolver do que nós em um escriotoriozinho no Centro da cidade.
Tenho eu, bêbada, também que resolver uma questão filosófica: quem pensa agora
são meus dedos? Pena que minha cabeça- não a mente, não esqueça- esteja quase
explodindo. Quase explodindo... Quase...quase descubro a resposta. Uma pena que
esteja assim, bêbada, e que já passe da meia-noite. Dezessete minutos.
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