O passado é um cárcere. Engavetadas na cômoda (no cômodo) de nossa memória, milhares, milhões, bilhões de imagens, palavras, sombras, vazios, incompreensões. Deitados, inertes, sem o ânimo das frutas novas, voltamos sempre às gavetas, tentando, talvez, encontrar soluções para o ócio da vida. Revisitamos a todo momento cartas velhas de papel destroçado pelas traças. As traças, elas sim, compreendem o valor do tempo; se fôssemos traças, arruinando o passado, seríamos livres. Mas as traças, sorte a delas, não têm memória. Seríamos nós inexorável e dolorosamente castigados pelo dom da memória? Os elefantes têm memória, o que não os torna menos livres que as traças. Traiçoeira natureza, complicadíssima de entender com palavras! Os elefantes têm memória- minha memória retomou esse ponto- mas não vivem no passado. O que aconteceu, seja um banho nas águas turvas e enlameadas das savanas mais longínquas, seja um dia de chuva com raios e trovões, está lindamente preservado num tempo a que não se pode mais voltar. Está encarcerado. O nosso tempo é igual ao dos elefantes: não dá pra desfazer o já feito, nem fazer o não feito, não é o que dizem? Aquele dia de chuva que passou, nunca poderia transformar-se em dia de sol, tal é o rigor do tempo. A tristeza que senti ontem, jamais poderia eu subvertê-la em alegria ou qualquer outro sentimento. Nada se repete, nada se copia: tudo se cria- e a todo instante. Por que nós, seres humanos, somos diferentes das traças e dos elefantes? O passado é um cárcere para todos. Pense então num prisioneiro. Não, não. Esqueça o prisioneiro. Pense num baú, aquele depositário de lembranças e antiguidades. O baú é um cárcere, mas um cárcere diferente daquele onde fica o passado das traças e dos elefantes. O baú fica guardado, mas não para ser esquecido, e sim para ser lembrado, de súbito, como um rosto de um antigo conhecido que vemos na rua, ocasionalmente. O baú é uma armadilha que criamos para nós mesmos: é a obrigação de se voltar ao passado, visitar as lembranças encarceradas. Nós queremos isso. Mas os baús guardam tantas belezas! Não tome o baú como o vilão da história, nem como o algoz de nossas vidas. Coitado do baú! Se o visitarmos ocasionalmente, como num encontro com um velho camarada, o baú não será nenhuma armadilha. Podemos abri-lo e fechá-lo sem dano maior. O problema é quando resolvemos arrastar o baú do canto escuro para a sala iluminada onde vivemos. O problema é carregar o baú. Para sermos livres não é necessário comer os papéis, como as traças. O passado não deve ser mastigado nem digerido. Basta que continue um cárcere, que nós sabemos existir e comportar dentro de si bilhões de lembranças. Lembranças que podem ser (re)visitadas sempre sem que precisemos libertá-las e trazê-las conosco para o caminho. O passado é um cárcere, ainda bem!
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