Os homens choram

Levantou-se da cama pontualmente, às seis e quinze. Com certo langor, caminhou até o banheiro ainda não iluminado. Distraído, viu-se no espelho, o cabelo despenteado, a barba por fazer. Escovou os dentes com os olhos fechados, penteou os cabelos ralos e despiu-se. Um banho seria suficiente para acordá-lo.
Após cinco minutos planejados e bem contados, girou a torneira e saiu do box molhado.Vestiu-se como de costume: terno e gravata.
Ao chegar na sala de jantar, viu sobre a mesa o café fumegante, dois pães com manteiga e o jornal do dia. Como gostava de ler o jornal. Lia tudo, do caderno de esportes aos pesados artigos de opinião. Elegia meia dúzia de assuntos para debater com os colegas que porventura encontrasse. O debate era uma de suas atividades preferidas. Sempre tinha uma ideia sobre qualquer problema colocado nos jornais. E não só era dono das soluções as mais inteligentes como também sabia de cor trechos de livros que endossavam suas teses. Dostoiévski, Platão, Kant, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, citava-os com tanta segurança que parecia até reencarnar seus espíritos.
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Depois de ler o jornal, com tanta atenção que não notara a chuva que caía em torrentes, saiu. No elevador, olhou-se para si mais detidamente: estava impecável.
Alguns segundos insistiram em passar (o tempo é implacável).
O homem subia dentro do elevador. O terno em algum desalinho, os olhos um tanto opacos. O dia não tinha sido como desejado. As pessoas corriam para casa, ninguém a fim de discutir política ou coisa que a valha.
Sentindo-se triste, entrou no apartamento em que vivia sozinho a maior parte do tempo, com exceção das horas matutinas em que a empregada botava o café na mesa. Na verdade, estava sozinho naquelas horas.
Também estava sozinho quando conversava com seus colegas ocasionais. Não acreditava em muita coisa além de seu conhecimento e de sua sofisticação intelectual. Sua inteligência bastava para dar sentido à vida. Pelo menos quando podia mostrá-la.
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À janela, ainda com a gravata no pescoço e os pés calçados, observava a chuva, como se as gotas entrassem pela boca e escorressem até a ponta dos pés. Um banho seria suficiente para acordá-lo.

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