Gárgula

Desde muito pequena, menina avoada e voadora, certas figuras humanas me fascinam. Talvez tenha em mim um pouco do espanto de João do Rio- jornalista, cronista e observador urbano- ao perambular pelas ruas do Rio de Janeiro. Os mistérios, as esquisitices e bizarrices dos cantos mais escuros e maculados por não sei que pecado foram sempre iluminados por meu anjo da guarda, anjo dúbio e sinuoso, dividido entre o céu e o inferno. As ruas são cheias de contrastes: o bem-aventurado artista em seu caminhar malandramente lânguido; o homem de negócios, suado até a alma, olhando malandramente pra frente; o bêbado desdentado e alegre em seu caminhar malandramente cambaleante. Os garis trajados de laranja-chamativo, invisíveis e sem cheiro; os apressados e fugazes encontros na mesma praça onde os velhos descansam os joelhos e alimentam os pombos; o observador e o observado.
Outro dia mesmo, sei lá se foi há mais de uma semana, vi uma figura que pode ser comparada apenas aos edifícios centenários e decadentes. O homem era um monumento, sujo, desgastado e fascinante. Olhar para ele é olhar para décadas de construção e apodrecimento. Infelizmente não há no IPHAN nenhuma categoria na qual ele possa ser encaixado.
Anteontem, segunda-feira pós-Carnaval, entrou no 455 um vendedor de balas conhecido das minhas fascinações de infância. O pobre está muito velho, a cabeça virada para o chão eternamente. Acho que sempre foi assim: um problema de coluna não deixa os olhos virarem pro céu, nem pra coisa alguma que não sejam as porcalhadas no chão. Como ele vê o mundo? O mundo pra ele deve ser o que cai no chão: folhas decaídas, papéis de bala decaídos, guimbas de cigarro decaídas e uma porção de outras coisas que eu nunca vi, nem você, nem ninguém; enfim um mundo decaído. Aquele homem-corcunda, um dia vendedor de balas, hoje não trabalha mais. Tem o corpo molenga, quase sem esqueleto, daqui a pouco uma substância fluida e coloidal. Tive a impressão, na segunda morna depois do festival carnal (carnaval) que ele se esforça como um bravo para não se deixar derreter. Trava uma luta pela certeza do corpo.
Essas figuras, não direi humanas- elas estão entre o humano e o bestial ou entre o humano e a divindade- enchem meu coração de perplexidade e admiração. Enchem meus pulmões de medo. Enchem meus olhos de lágrimas. Essas figuras, enfim, enchem as ruas com a magia típica das bruxas e dos centauros, fazendo do Rio de Janeiro uma cidade maravilhosamente fantástica.

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