Minha cama fica colada à janela do quarto. Às vezes deito olhando as estrelas, o planeta que vez ou outra aparece. Vênus ou Marte. Assim, olhando pro alto, falando com o planeta e as estrelinhas, volto a ser - só um pouco - a criança que reza. Era deste jeito: toda noite, antes de dormir, conversava com Deus sobre um monte de coisas. Ele era meu amigo. Hoje não nos falamos mais, pelo menos não com palavras e mãos juntinhas. Não vou mentir: fiquei de mal com ele.
E fui à procura de outras conversas. Ontem conversei com as estrelas e o planeta vermelho acima da minha cabeça. Não vou mentir: fiz um pedido. Sei que é para as estrelas cadentes que se faz pedido, mas quebrei a regra. Pedi ao planeta e às estrelas que me dessem uma coisa, apenas uma: a capacidade de me comunicar. Dizer as coisas que eu nem sei o que são. Descobrir as maneiras de dizê-las. Talvez essa seja a minha - e a nossa - missão mais importante. "Estrelas e planetinha, me ajudem! Tenho medo de que nunca descubra como dizer"! Tenho medo mesmo, pavor. Seria triste não conseguir. Porque o que mais vale é o que dizemos (não precisa ser com palavras), o que deixamos com as pessoas. Mesmo que tudo se perca um dia, que seja esquecido. E será, e será. No entanto, é preciso comunicar. É preciso que o fogo levante fumaça e chame os demais. Venham, venham! Não me deixem só. Não quero pensar sozinha, não quero falar só com as estrelas, só com Deus. Não quero aprender a cantar o "O, mensch, gib acht" só pra mim.
Sonhei com meu pai noite passada, e no sonho disse a ele: tente comunicar. Tente descobrir o melhor caminho para dizer. Nós temos cinco sentidos, nossa comunicação com o mundo. E isso é maravilhoso! Ver, sentir, ouvir(!!). Estar vivo. Ser humano. Ter a capacidade de dar sentido, ter a capacidade de inventar o mundo. Inventar Deus, inventar as estrelas.
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