Espero na Praça Quinze

O desejo me fez nas esquinas
Queria achar, queria achar
Nalguma dobra, noutro vazio
Queria pegar com as unhas
A carne do bicho
Abocanhá-lo nas asas
E comê-lo até o pedaço
De um outro caminho.

O sol que saiu dum buraco
Raiou nas saias de renda furada.
Fechei os olhos
Pra nada
E não quis o amanhã.
A água podre da Baía foi enchente
Nos pequenos, tão pequenos buracos
Poros e os furos do meu sapato gasto
Tão gasto que sinto as pedrinhas de chão.
Fui lembrar que às minhas costas
Cem prédios foram erguidos
E amparam meu peso infinito
E ínfimo de quarenta e sete quilos.
Bate o relógio as três da tarde
O rigor dos prédios, rigor do tempo.
O som faz imaginar que tudo muda
Às três da tarde
Junto ao pouso do avião
E meu repouso: penso em ti
Alguma barca vai partir
E adivinho:
Foges, numa bicicleta de mil e quinhentas marchas.
Qualquer caminho é o teu
E sabes de tudo
Mas te engano.
Toda vez que passeio
Formulo o plano:
Encontrar-te
Num desejo mútuo e igual
Sereno e súbito
Falar-te com lábios
Segredos mudos
Do castelo da Ilha Fiscal
Da água (o mau cheio)
Do cais afundado
Do pássaro morto
Da minha esperança (o desejo).
Espero o tempo que é.

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